segunda-feira, 27 de setembro de 2010

A contadora de carros.

Um dia vou comprar um carro...
E passar na sua frente...
Só pra você me contar, também.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Vazio

É mais uma noite vaga.
Minha única alternativa
É o sono, a cama, a calma.

E mais um dia me passa.
Com ele vai o desejo,
O beijo e a alma.

domingo, 12 de setembro de 2010

O Andarilho e a Musa

O Andarilho e a Musa
por Matheus Rocha

I – O Andarilho

Pouco se sabia sobre ele. Era um andarilho da noite. Quase um eremita. Sua longa barba e suas vestes longas e negras eram suas marcas. Sabia-se que gostava de beber vinho. Não era um beberrão, não do tipo que bebia até cair. Solitário, por sinal. Mal se via ele com outras pessoas, a não ser se estivesse num bar, mas ninguém junto a ele. Tampouco era chato. Por beber solitariamente nas tavernas, era silencioso. Mal reclamava.
Morava num quarto de pensão, alugado. Apesar de morar num lugar fixo na cidade, era conhecido como andarilho. Fazia suas andanças pela cidade, principalmente à noite. Tinha poucos pertences. Levava consigo sua túnica que usava, um pequeno baú, um caderno com penas e tintas e um alforje. Dinheiro também não parecia ser problema, já que pagava em dia a pensão e as bebidas. Bebia não para afastar os males. Mais parecia um romântico neoplatônico. Apesar de sua aparência ser a de um velho senhor, seu espírito, este sim, era o de um jovem amante! Amante da bebida e das mulheres. Não era um cafajeste.
Bebia mais à noite. Parecia não ter nenhuma ocupação fixa, apesar do dinheiro, que não se sabia de onde o velho tirava. Durante o dia, escrevia em seu caderno, que mais parecia ser um diário próprio. Não recebia visitas, parecia não ter parentes próximos. Na cidade se dizia que era um doente, não sabia nem quem era. Ele nem ligava.
Certa feita, tal homem, após suas lendárias excursões noite e madrugada adentro, encontrava-se andando, solitário como havia de ser, numa das ruas mais movimentadas da pequena cidade, uma rua cheia de tavernas. Entrou numa que diria ser uma casa abandonada, se não fosse pelo movimento constante que se encontrava.
Adentro do estabelecimento quase cheio, o andarilho sentou-se num lugar longínquo e escuro da taverna, onde a intensidade da luz, embora vinda de lampiões e castiçais cheios, era fraca. Lá ficou por longos e demorados minutos, parecia comovido. Sua expressão absorta quase o denunciava. O movimento na taverna crescia cada vez mais a todo o momento, as conversas em tom alto, quase estrondeante dos ébrios ali presentes, o barulho de copos quebrando... Nada parecia incomodar o velho.
Depois de certo tempo em tal estado, levantou-se, como se estivesse acabando de sair de um transe, um estado sonolento profundo. Foi até o balcão da taverna e pediu um bom vinho, se possível dos mais velhos. O taberneiro, já com a paciência esgotada de trabalhar a noite toda, quase o escorraçou de lá. Falou várias ladainhas, dessas que só se escutam em tavernas.
Talvez a forma mal trapilha do velho devesse causar uma má impressão a quem o visse. Pensou ele ser o motivo de tal atentado. Ele se explicou:
- Caro colega, não vim discutir com vossa senhoria. Não sou nenhum desses transeuntes que por aqui passam. Quero apenas uma taça de um bom vinho. Nada mais.
O andarilho agradeceu ao taberneiro e entregou-lhe as moedas pagas pela taça, que quando as viu tratou logo de ir buscar a taça e enchê-la de vinho. O velho homem escorou-se no balcão e tomou calmamente o vinho, enquanto a taverna, cheia de fanfarrões como disse, continuava o barulho ensurdecedor. Depois da taça, pediu licença ao taberneiro e se retirou, deixando a taverna e seus barulhos para trás.
Ao sair, percebeu que já se aproximava o alvorecer. Já era hora de voltar à pensão, afinal a noite foi bastante longa.


II – Encantos oníricos

Estava andando pela rua, já havia clareado um pouco. Seus olhos pareciam lacrimejar um pouco, seu rosto estava mais vivaz, mais rubro. Viu-se diante de um jardim florido, numa linda praça, com os pássaros anunciando a chegada do sol. A bela visão fez com que o homem andasse mais depressa ao encontro de tal majestoso local. Se estivesse no deserto, diria que era um oásis.
Que belo lugar! Apesar de certo estado de embriaguez, podia garantir que sempre passara por aquele local, mas nunca tinha percebido sua beleza! Entregou-se aos encantos doces de tal paisagem. Parecia um desbravador naquele local, quis conhecer a área onde estava situado, e preocupou-se logo de começar a andar em volta.
Quantos dias em sua vida teriam de ser pagos por uma visão como aquela? Nada no mundo poderia ser maior do que aquilo à sua frente! De súbito, viu-se tremendamente errado quanto às frases antes ditas. Na verdade, seus olhos pararam na visão mais bela que podia um homem ter visto em toda sua tenra existência.
Era incrível o encanto sentido naquele doce momento. Ela estava lá, andando por entre as flores. Parecia se confundir com elas, tal era sua beleza. Majestosa. Imponente. Ele sentiu-se fraco, incapaz diante dela, embora estivesse bastante longe dela. Não acreditou. Não dava pra ver direito. Não era possível, era uma ilusão! Tentou chegar mais perto, andou um pouco, até seus olhos verem com nitidez. Não era ilusão. Tentou chegar mais perto, suas pernas não conseguiam se mover, parecia um velha estátua.
Ela se virou. Ah! Que encantadora! Ele sentiu certa vertigem ao vê-la. Era realmente de uma beleza estonteante, qualquer homem ficaria em tal estado. Seu coração estava cada vez mais acelerado, suava frio, não se movia... Tentou mais um passo, nada. A imagem que estava diante dele parecia agora se distanciar. “Oh, não! Não façais isso com este pobre homem que te suplica! Diz-me pelo menos teu nome, se é que tens nome, ó linda criatura encantadora!”
Tentou correr atrás dela, suas pernas nem se moviam direito, no primeiro passo dado caiu... E acordou.



III – Do encontro

Qual não foi sua decepção ao ver que tudo se passava num sonho? Parecia ter raiva de si. Porque acordar de um sonho tão lindo como aquele? Ah, se pudesse voltar ao sonho, ver de novo a imagem da linda mulher ali presente. Lamentou por todo o resto do tempo ter acordado de tal visão. Afinal, quem era ela? Isso se ela realmente existir, é claro. Não idealizara tudo aquilo?
Abriu a janela. O dia já estava mais claro. O sol que antes estava encoberto por nuvens agora já se deixava ver, penetrando em seus raios as janelas dos cômodos. A velha casa onde havia se instalado desde alguns meses atrás, para ser mais preciso desde que chegou à pacata cidade, mantinha um jardim perfeitamente cultivado, junto a um pomar, de onde se tirava a refeição dos inquilinos. Havia também uma fonte, decorada por uma estátua angelical em seu centro.
Seu aposento era pequeno, mas bem decorado lugar. Tinha apenas a cama e um pequeno armário, a janela e o seu pequeno baú. Desceu com certa pressa a escada, logo chegou ao lado de fora da pensão. Banhou seu rosto com a água da fonte, despertou um pouco sua expressão sonolenta. As imagens de seu sonho não lhe saíam da cabeça. Tratou logo de apressar-se e ir colher alguns frutos para a ceia matinal. Estava com fome.
O pequeno pomar cultivado era bem produtivo, dava bons frutos e era comum à todos da casa. Cada um tinha uma tarefa, afinal, estavam ali alojados e tinham que contribuir de alguma forma. Às tarefas que lhe eram incumbidas, o andarilho fazia com total gosto. Era muito cuidadoso com o pomar e um pouco ciumento quanto a seu aposento. Fez suas tarefas bem feitas, como sempre, mas as imagens não lhe saíam, nem sequer conseguia se distrair direito, tudo a lembrava.
Passara o resto do dia recluso em seu quarto, lembrando do sonho que teve na noite passada. Que grande sorte a dele sonhar com tal ser! Sentiu certa avareza, ao pensar em tal musa. Queria só pra ele os prazeres oferecidos por aquela encantadora. Mas, como pensar nisso, se foi tudo um sonho? Oh! Que profundo pesar abateu-se em sua alma ao passar por sua cabeça tal raciocínio! O pôr-do-sol de aproximava quando o velho andarilho decidiu sair de seu quarto. O salão de festas do casarão estava repleto de gente, para todos os gostos. Haviam mesas cheias de frutas e bebida. Ignorou por completo tal situação e saiu às pressas.
No seu caminhar notava-se um profundo ressentimento. Seus passos agora lentos e sempre silenciosos faziam dele quase um ancião. Parecia uma pobre alma a penar e assombrar a cidade. Com o velho tempo de outono, o vento estava um pouco mais frio do que o habitual, e era forte. Haviam folhas caídas por todos os lados, as árvores estavam desnudas. O céu já dava menções de que logo iria escurecer. Era o prenúncio de uma noite longa para o velho. Queria ele não mais ter acordado depois do sonho! Que bela imagem de fim de vida teria ele! Na tranqüilidade serena, na qual iria descansar, e com a mais bela vista jamais imaginada! Viu o orgulho bater de fronte a seu peito nessa hora.
Em sua penosa caminhada, não observara as belas paisagens ao longo de seu trajeto, coisa que tanto gostava de fazer. Era capaz de morrer de desgosto no estado em que estava? Não sabia, mas sentiu lá no fundo uma pontada. Queria isto dizer que sim? “E porque não morri antes de ter acordado!” Aceitaria com total resignação aquele primeiro fim depois do sonho!
A noite já caíra. Procurou um lugar para ficar. Avistou uma bela praça, florida, com bancos de mármore. Procurou sentar-se em um dos bancos. Um casal andava pela praça tranquilamente, de mãos dadas. Dois enamorados, laçados pelo destino! O andarilho sentiu cair uma lágrima quando viu o casal. Quanta angústia se debatia em seu ser! Será que algum deles sabia o que se passava com o outro, ou estavam juntos por simples idéia de estar? Ah, nada no mundo lhe fazia tanta falta quanto aqueles doces minutos (ou segundos?) que passara sonhando! Em seu lugar qualquer um sentiria o mesmo. Desatou a chorar como uma criança quando lhe tiram os doces. Se nos déssemos conta do que se passa em tais situações!
Saltou desesperado do banco. Estava agora em profusa loucura de espírito. Corria vagamente sem direção certa. Aquilo o consumia de dentro para fora. Seu estado exterior era péssimo. Quem o visse de fora diria que era maluco, um lunático. Mas ninguém sabe quais as verdadeiras razões que movem o espírito humano para tal ponto. Sabe-se que após essa noite na praça, nunca mais foi visto o pobre velho andarilho.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Pétalas e Pedras

Pétalas e Pedras
por Matheus Rocha

Ela corria descalça por entre as pedras. Sentia o chão duro embaixo da sola dos seus pés. Apenas algumas árvores davam um pouco de sombra ao campo. A concentração maior era o bosque. Seus olhos corriam mais rápidos por aquele vasto campo do que suas próprias pernas. Estava à procura. Tinha, lá no fundo, a certeza de que estava prestes a chegar ao lugar combinado. Mas faltava o caminho. Faltava trilhar aquele caminho saindo do campo e enredando-se pelo bosque à frente. Ao aproximar-se do bosque, desacelerou o passo. Agora caminhava normalmente. Não demonstrava nenhum tipo de cansaço. Mas parou em frente ao bosque.
Ainda não havia entrado. Fitou o bosque em sua extensão. Era a última coisa que tinha que passar para chegar. Parecia ter um certo receio de entrar. Fez uma prece silenciosa, sentiu a brisa passar por ela. Parecia um convite para adentrar-se nos mistérios do bosque à sua frente. Lugares abertos, como o campo a pouco atravessado, justamente por serem abertos, parecem dar a ideia de que nada escondem. Mas existem as pedras do caminho, escondidas ao longo do percurso aberto. Já o bosque parecia ser um lugar fechado, e lugares fechados denotam segurança. Porém, por serem fechados, não dão espaço a aparentes novidades naturais. Ela considerou isso antes de entrar. Estava diante do bosque e de costas para o campo.
A leve bruma do fim de tarde parecia ser mais densa na extensão do bosque. Ainda estava com o pensamento anterior na cabeça. Pôde perceber a diferença entre a bruma dispersa do campo e a densidade dela no bosque. Dava um leve tom obscuro aquele lugar. Mas os raios de sol, não tão fortes, é claro, os raios de sol em tons alaranjados ainda apontavam-lhe o caminho. A tonalidade do horizonte ao fundo confundia-se com o fogo dos seus cabelos. O Santuário da natureza estendido a sua frente ganhava tons maravilhosos com o fundo.
Enfim, entrou. Talvez com certo receio em seus passos. A cada centímetro andado, ela via sua realidade estreitar-se apenas aos confins do bosque, como pensara. Parecia não haver novidades naturais. Passou por sua cabeça pensar que ela era a novidade esperada, afinal nunca tinha entrado no bosque. É, era possível que fosse isso. Ficou encantada com as árvores que se agigantavam à sua frente. Parecia uma criança, mas não tinha medo de se perder lá dentro. No fundo, até gostaria de ficar entre elas. Porém, nada conhecia sobre árvores. Podia distinguir uma da outra pelo verde mais intenso de umas, ou as flores de outras, quem sabe pelas cascas de tronco.
Parecia um animalzinho qualquer ante o bosque. O labirinto de árvores que agora tomava conta do seu horizonte de vista era, no mínimo, amedrontador. Ela deixou sair um largo sorriso ao perceber a terra do bosque. Parecia mais úmida, assim como o ar. Pensou ser devido à chuva da última noite. Ocorreu-lhe que aquele emaranhado de troncos mais levava a crer que era uma caixa, ou um cômodo de uma casa por onde tem que passar até chegar ao ponto que se quer. As pedras que se encontrava lá fora, no campo, também estavam por lá. Umas mais enterradas, outras mais próximas a superfície. Talvez tenha mais algumas embaixo da terra. Além da terra e das pedras, que as vezes se confundiam, haviam ali os cascos das árvores. Eram escuros, alguns pareciam pedras, se vistos de longe.
Uma árvore florida chamou-lhe a atenção. Tinha um colorido diferente das outras. Algumas, em comparação com a que estava concentrada, pareciam estar mortas. Tinha flores brancas. Combinava com seu vestido claro. Puxou uma delas e arrumou em seu cabelo. Tinha um aroma forte e penetrante ao redor do local. Deduziu que não vinha daquela árvore, a flor não dava aquela impressão forte. Pelo contrário. Era muito espontânea para ser forte. Logo prosseguiu com o atravessar pela floresta. Sempre olhando para tudo que podia. Para a primeira vez, ia levar uma boa impressão daquele verde e florido lugar.
Havia muita coisa a ser vista, e essa primeira visita deixou despercebida muita coisa do bosque. Iria visitar aquele lugar mais vezes, isso tinha certeza. Não perdia o horizonte de vista. O bosque, por sinal, não era muito denso. Não logrou a sair do bosque e deparar-se, mais fortemente, com o horizonte à sua frente. Algumas árvores pareciam ter se desvencilhado do bosque e pulavam para fora. Foi escondendo-se por entre as árvores, fazendo pouco barulho. Ele já estava sentado na pedra, estava esperando por ela. Pôde constatar isso de longe. Aquela silhueta sentada sobre a pedra não deixava enganar.
Parou um pouco para perceber melhor a vista. Algumas árvores, flores, pedras e o horizonte alaranjado ao fundo, fazendo parecer mais um sonho do que um fim de tarde real. Tinha visto essas coisas apenas em livros, quadros e sonhos, claro. Contemplou durante alguns minutos aquela paisagem. Precisava ir até ele. Estava apenas a alguns metros, é certo, mas podia perder o ângulo de vista daquele cenário. Foi, enfim, de encontro.
Aproximou-se lentamente, sem fazer barulho. Parecia já estar acostumada com aquele local. E já estava, só não tinha entrado no bosque ainda. Conhecia os palmos daquele terreno bem, e sabia que ali seria um bom lugar para conversarem. Não quis assustar ele. Subiu na pedra e encostou-se a seu ombro. Ele parecia estar impaciente com aquilo tudo, aquela calmaria toda, e deixou ver tudo isso no seu rosto. Ela hesitou e o olhou fixamente.
- De novo você faz isso! Sabe que não gosto desse seu ar de que sabe mais sobre mim do que eu mesmo. – resmungou ele. Ela baixou os olhos e sentou-se a seu lado. O sol já estava para se pôr, e do alto daquela pedra parecia estar também maior. Ela permaneceu calada. Aquele silêncio parecia confortável para ela, mas ele não estava acostumado com aquilo tudo.
- Volto amanhã para a cidade. Tenho algumas coisas a fazer no trabalho. Não sei quando posso te ver de novo. Mas logo que puder, virei até aqui. – ele parecia estar nada contente com aquilo tudo. Ela permaneceu em silêncio. – Está me ouvindo? Porque me deixa falando sozinho? Você parece não se importar! – Ela o calou com um beijo. Sentiu os lábios molhados dela irem de encontro ao seco dos lábios dele.
- O que você quer? – perguntou ele, com um tom seco e vazio.
- Quero que não volte. Este foi meu beijo de despedida. – ele a fitou. Parecia indiferente com o que acabara de dizer. Não conseguia organizar direito seu pensamento depois de ouvir aquilo dela. Puxou um cigarro e fez menção de acendê-lo, mas fora impedido por ela. – Viu que não se importa? Tudo o que você fez até agora foi jogar palavras aos montes. Mais uma vez você vê muito e acha nada. Não percebe o que tem num palmo a sua frente. Quero que vá e não volte, não me procure mais. Se for isso que tem para me dar, não precisa voltar.
Ela olhou para o pôr-do-sol e deixou-o sentado, desconcertado ao seu lado. Ele saiu com certa pressa de lá, diria desembestado. Contemplou a paisagem à frente com lágrimas nos olhos. Sabia que tinha feito a escolha certa, mas escolher certo era difícil. Não olhou para trás, não por não querer vê-lo, mas que sabia que tudo aquilo que passou só existia atrás, no passado. E virar-se seria reviver, e magoar-se novamente. Sabia que aquele não era o seu amor, não falava a linguagem. Sentiu o vento, agora mais forte, passear por seus cabelos. Sentiu a flor branca querer desprender-se deles. Olhou para o lado, viu uma pequena borboleta voando sobre a pedra. Pareceu sentar-se ao seu lado. Quis voar, mas pousou suavemente sobre a palma da sua mão estendida. Ela queria dizer-lhe algo, sentia isso lá no fundo, e deixou-se ouvir o que aquilo tudo iria dizer.
Fechou os olhos por alguns momentos, respirou fundo o ar límpido daquele monte. Deitou-se esticada sobre a pedra, com braços e pernas bem afastados entre si. Sentiu o vento brincar com seu vestido e os fracos raios de sol iluminarem seu rosto suavemente. Ela pareceu confundir-se com o vento que corria solto. Sentiu-se leve, menos pesada, talvez até sem corpo. Era uma sensação mágica aquela de sentir-se vento. Sabia qual era o agente de toda força do mundo, que agora ela deixava entrar por entre seus poros e pensamentos. A lição do bosque tinha caído sobre ela, sobre seus joelhos no momento da conversa. Ficou de pé sobre a pedra. Percebeu o sol indo e uma gaivota transpassando o horizonte, cortando-o com seu vôo leve.
Sabia que não ia cair, não deslizaria para baixo. Estava firme em seus joelhos. Buscava esta verticalidade desde que começara a buscar seu caminho. E encontrou nas árvores do bosque a sabedoria da verticalidade. Viu e ouviu bem a sabedoria das árvores. Precisava da comunicação em três níveis. Sentiu, naquele momento, ser também uma árvore. Suas raízes fincadas no subterrâneo, de onde tirava suas forças; seu tronco observando a superfície e extraindo significados; e seus galhos que iam de encontro à sabedoria suprema dos céus.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Desespero

Mas no amor, a alma se desafia,
Desanda. Dominado pela melancolia,
O ser se debate até morrer, sem saber
Se realmente amou um dia!

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Imagens

Imagens
por Matheus Rocha

I

A luz da manhã penetrava em seus primeiros raios nos cômodos do apartamento. O dia, enfim, começava a clarear, depois da fria e escura noite passada. Ao bater a luz, o lugar parecia ganhar vidas, cores e formas próprias. A arrumação era feita de modo que o espaço se mostrasse para quem o visse de dentro. Visto de lá, o chão parecia longe em relação ao seu lugar. Não sabia o que pensar naquela hora, ali, naquele lugar sustentado.
Foi ao parapeito da varanda. De lá observava tudo, com aquele olhar de fotografia, congelado. Via o que acontecia, se divertia com aquela bagunça. Não era visto, não pelos que passavam lá em baixo. Havia um vento quente circulando àquela hora da manhã. Respirou fundo. Era o começo de mais um dia, o começo da sua ignorância cotidiana.
Se sentia um fantasma vagando pelo apartamento àquela hora da manhã. Morava sozinho, estava estranhamente acostumado com aquele ritual matinal. Devia ser o único acordado dos moradores do prédio naquele horário quase madrigal. Dirigiu-se à mesa de bebidas, colocou uma dose de uísque forte. Precisava acordar, depois da noite anterior. Não conseguira dormir direito por pelo menos três noites seguidas. Era o primeiro dia de um final de semana que tinha tudo para ser torturante. Ainda esboçou um sorriso irônico, quase tímido, ao pensar naqueles dias.
No dia passado havia mandado flores, que não sabia exatamente se teriam chegado ao destino certo. Procurou mais algum resquício da noite, procurou em vão. Logo se esqueceu de procurar. Os olhos procuraram pela sala algum retrato, alguma imagem, algo que lhe pudesse trazer de volta ao hoje. Algo que desse forma a seu presente. Estava nitidamente irrequieto com aquele turbilhão de pensamentos matinais que nos afetam diariamente ao acordarmos. Era um náufrago em sua própria ilha.
Pensou ainda estar com sono, o que era normal para aquela hora do dia. Mas era uma vaga mentira para aturdir seu vazio. Deu um gole rápido no copo à sua mão. Sentiu o líquido quente percorrer sua garganta, invadindo seu corpo rapidamente. Precisava sentir-se vivo outra vez. Não sabia dizer ao certo o que estava acontecendo. Sabia que queria ficar ali, permanecer por um bom tempo longe do chão.
Ligou o som, ouviu o que parecia uma marcha fúnebre. “Parece que me escutam” pensou ele. Logo viu a chance estendida à sua frente. Sentou-se ao lado do rádio, bebeu mais um pouco do uísque. Prestou bastante atenção no concerto que ouvia. Concentrou-se. Fechar os olhos foi o próximo passo. Sentiu a calmaria do alto onde estava. A música penetrava lentamente em seus sentidos. O escuro que se apresentava a ele não tardou de encurtar-se e logo deu lugar a um deserto.

II

Logrou a tomar a decisão de vagar no deserto. Sua caminhada começou com o primeiro passo, sempre o mais difícil. Sentia-se alheio a tudo aquilo à sua volta. Não reconhecia aquele lugar, nem em seus mais altos sonhos já vira tal local. Sua sensação de ser fantasma aumentou naquele momento. Estava quente, como era de se esperar. Avançou com o primeiro passo, e sentiu as areias do deserto penetrar entre seus dedos dos pés. Sentiu também o vento brincar com seus cabelos, jogando-os para todos os lados. Ainda tocava sua pele, como se o acariciasse carinhosamente. Levou adiante seu corpo.
Começou lentamente a caminhada, rumo a não sabia o que ou a quem, ou mesmo a onde. Mas começou, e isso era um passo importante. Permitiu-se sentir as sensações mais de perto, mais próximas de si. Olhou curioso para os lados, para trás, para cima. Parecia não haver nada. A sensação fantasmagórica o invadia cada vez mais, deixando transparecer em seu rosto. Mais uma vez, procurou em volta alguma coisa. Precisava ter a sua segurança dentro daquele desconhecido. Viu-se sozinho. Mas aquela solidão não era por sua conta própria, era uma outra solidão. Sentiu medo de estar ali. De impulso, viu-se correndo e olhando para trás.
Tinha uma certeza agora: corria de algo que não sabia o que era para algo que também não tinha idéia. Desesperou-se ainda mais. Jogou suas forças para as pernas, correu o mais rápido que pôde. Ia para qualquer lugar, e para lugar nenhum ao mesmo tempo. Correu o que parecia longos minutos, desesperado. Esqueceu-se de que pretendia sentir tudo o que podia. Algo o impedia de tal feito.
Até que avistou o que parecia ser uma velha cabana. Estranhou ver aquilo no meio do deserto. Pelo menos de longe, era o que parecia ser. Mudou de semblante. Não estava mais assustado, veio uma sensação agradável, de conforto. Não deixou-se ancorar por muito tempo naquele espaço, e foi em busca daquele lugar, um oásis diria. Agora não tinha nem um pouco de calma, tinha que ir rápido. Era acostumado a se sentir seguro, dono da situação. Nem de longe aquela situação em que se encontrava era favorável.
Não desgrudava os olhos, nem o pensamento, na velha casa. Agora, tudo parecia convergir ao mesmo ponto no espaço. Agora, tudo o que desejava havia se tronado material. Era real, enfim. Deu uma gargalhada solta, ecoou por todo o deserto. Finalmente estava indo de encontro à segurança. Isso era inquestionável para ele. Sentia-se profundamente alegre, saiu daquele desespero que o perseguia pelo caminho.
O que lhe parecia um lugar, como sempre, virara obstáculo. Pareceu-lhe que o deserto agigantara-se de repente. Não teria mais fim. Parecia não mais sair do lugar. Era ele contra o deserto, o deserto contra ele. Para ele, era só uma questão de tempo chegar à velha casa ao longe. Talvez nem sequer tenha pensado que para o deserto, era apenas mais um ser que pisava em suas areias, e sentia-se dono. O homem estava entregue a sua luta, talvez interminável, contra aquele mar de areia. Esquecera do calor, do desespero, do medo que se encontrava. Tinha apenas a chegada em mente, não queria saber do meio.
Não era um lugar sustentado. Não era um ser sustentado, como ele. Não lhe tenha ocorrido de pensar que o silêncio daquele lugar era apenas silêncio, sem nenhuma explicação? Era detestável viver sem explicação. Tudo acontece como deve acontecer, e lá não era diferente. Seu cotidiano era afetado por insegurança e medo, talvez por isso tenha corrido para a projeção que tenha feito. Sim, tudo era uma projeção.
Ele teve a ligeira impressão de que quanto mais corria, mais distante ficava de seu objetivo. A velha casa escapava-lhe por entre a areia do deserto. Não deixou a frustração alcançar-lhe. Tentou mais depressa, caiu acabado. Seu rosto foi direto de encontro a quente areia do deserto, estava sem forças. O deserto ganhara enfim.

III

A marcha cessara de tocar naquele instante. Ele abria os olhos, lentamente. Enxergou-se novamente em seu apartamento sustentado. Estava confuso sobre o que o deserto queria lhe dizer. Sabia que era uma estória que não ia esquecer-se tão facilmente. Permaneceu sentado, mas desligou o rádio. Olhou o relógio, não havia se passado muito tempo como havia pensado antes. Aquilo lhe pareceu tão demasiado grande para ter acontecido em curtos minutos!
Talvez não fosse necessário compreender de imediato o sentido do deserto. Foi apenas jogado ali. Nada mais. Pensou que o deserto, por ser grande, deu-lhe a estranha impressão de que tudo era rápido, como os grãos de areia que voavam constantemente. Ou poderia ser exatamente o contrário. Considerou por muito tempo esse pensamento. Pelo menos uma coisa ele acreditava ter sido aparecida em sua frente durante aquela estadia no deserto. Ele sabia agora. Não era uma mera impressão casual. Aquela experiência deixara suas marcas, como todas as outras. Mas, diferente das outras, ele havia vivido (ou, pelo menos, pensado que tenha vivido) aquilo tudo. E o sentido sempre aparece quando vivemos as experiências em totalidade.

Xadrez

Xadrez
por Matheus Rocha

O sorriso forçosamente pintado em seu rosto tentava explicar a figura recostada na calçada. Parecia estar estragado, ou coisa do tipo. Vencido, passado da validade. Estava estranhamente “sujo”, com partes pinceladas por carvão. No fundo, o branco; na superfície, carvão. O contraste da pintura, preto e branco, era o que dava vida à figura. Aquela fantasia era tudo o que tinha.
Era carnaval. Já havia esquecido qual dos dias era. Julgava ser a quarta-feira de cinzas, pelo seu estado. A festa rolava solta lá pelas tantas da manhã. Observava o movimento das pessoas indo e vindo. Não parecia querer mudar sua posição, ali recostado em algum ponto da cidade. Esquecido. A festança rolava solta na rua. Ele parecia nem ligar para os acontecimentos. Nada parecia atrapalhar sua visão absorta, se é que estava vendo alguma coisa. Era um pierrot. Mais um no meio da multidão.
O sorriso pintado pelo negro não estava desbotado, pelo contrário, parecia querer saltar de seu rosto. A fantasia era quem ganhava vida no carnaval, assim como todas as outras. Mas diferentes dos outros, a fantasia era ele. A sua fantasia tinha vida própria. Ele misturava-se com sua fantasia. Cada recorte fantasioso era um pedaço dele, e ele era um pedaço da fantasia. Eram um só. Acompanhava com o olhar as máscaras que via à frente. Tentava buscar um sentido para aqueles recortes. As extravagâncias reinavam soltas na rua. Era tudo permitido. Eram outras fantasias que faziam parte da rua, que era só um adereço adicional da festa. Ele não parecia estar alegre, só o vivo sorriso negro era visto. Diria ser um sorriso irônico.
Os sorrisos que provinham das máscaras ao seu redor eram mais verdadeiros do que os escondidos atrás delas. Bastava uma leve distração comum, e ninguém percebia o fato. Os símbolos têm linguagem própria e logo se adivinhava o que estava por trás deles. Ele parecia lembrar e esquecer, num piscar de olhos. Não se comprometia. Soltou um grande sorriso sarcástico, uma gargalhada. A multidão nem parou para observar. E ele ria. Cada vez mais fundo olhava para aqueles que iam de encontro a ele. Nada falava, nem gesticulava. Sua fantasia, e seus olhos, falavam por ele. Nada disse.
O pierrot levantou-se. Ficou parado contemplando o horizonte de máscaras que se estendia à sua frente. Seu olhar frenético parecia percorrer os mais ínfimos cantos daquele mar de signos. Rumou contra a multidão, dava passos precisos, quase calculados. Com as mãos para trás, como que atadas. Com o sorriso dando cartão de visitas, caminhou. Misturou-se à multidão.
Ao caminhar por entre estranhos, aqueles velhos desconhecidos de longa data, tentou captar o que estavam mostrando aquele colorido inerente àquelas pessoas. Havia barulho intenso, típico barulho de quem não tem nada a dizer. Passou o pensamento de que ele também era alheio às outras pessoas, do mesmo jeito que ele pensava deles com ele. E sorriu. Talvez interpretassem que era normal aquele sorriso, devido à época do ano em que se encontravam. Se mesmo as fantasias nada queriam dizer realmente sobre quem estava por baixo delas, o que dizer de um sorriso?

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Poesia de Inverno

Um bom inverno.
Sentimento eterno.
E um pouco do inferno.

sábado, 14 de agosto de 2010

A Espera

A Espera
por Matheus Rocha

A penumbra começava a fazer-se presente no quarto. Anoitecia lentamente, o que fazia crer que o tempo também assim prosseguia junto. Os segundos pareciam demorar mais do que o habitual. As janelas abertas deixavam penetrar o vento obscuro do outono. A pequena vela estava ao seu lado, plácida e firme como sempre. Tinha certeza de que estava palidamente sombria, ainda mais com a vista que se deixava ver atrás dela. O céu tremendamente escuro, o sol caindo ao fundo. A calmaria instalara-se lá fora, dentro do quarto nada se passava. Sabia que se aproximava, cada segundo a mais era um a menos. E tudo parecia correr bem.
Os lençóis, limpos e brancos feito neve, não iriam se sujar. Formas e cores já não faziam mais sentido algum. Nada faz sentido algum. Nada. O que a levaria? Lembranças adormecidas por muito tempo, que pareciam perdidas para sempre, vieram-lhe a consciência. Deixou-os passar livremente, e logo vieram outros. Era ininterrupto. Já estava à espera.
O quarto, seu quarto, tinha colorações em tons roseados. Redecorou inúmeras vezes aquele espaço. Queria que tivesse a sua cara, o seu jeito. Gostava de estar ali. A mobília, escolhida por ela; a decoração, os jogos de cama, tudo fora ela. E agora, que tudo isso se fora, era apenas espaço vazio. Oco. Ela agora estava mais parecida com um ornamento morto dentro daquele espaço em forma de quadrado que tanto tentara fazer algo seu. Ela não sabia se fazer espaço. Queria que o espaço se fizesse dela. Não conseguia reconhecer-se fora de algo. Era só aquela densa e pálida figura recostada em uma das extremidades do quarto.
Deixava os cabelos caídos sobre os ombros. Preferiu colocar a cabeça por entre as pernas e esperar. Os braços sobre a cabeça a deixavam inerte, absorta em si. Desconfigurada ela se sentia. A casa em que sempre morou parecia totalmente alheia a ela. Sentia que ficara gélida, sem expressão, a cada volta do sol. O vento trazia o gelo que agora batia dentro de si. Agora a escuridão era plena.
Há dias que chorava compulsivamente. Não sabia porque. Levantou a cabeça, viu-se ao fundo. Conseguia distinguir apenas alguns borrões em meio à penumbra. Nada via claramente, com precisão. Não tinha mais forças, estava ansiosa pela chegada. Sabia que essa era a certeza pela qual deixou-se enganar toda a sua existência. Passara a vida apegando-se a distorções, cacos daquilo que se mostrava para ela.
Deixou pender a cabeça para o lado. Escapou um grito seco, quase sem vida, sem forças. Parecia querer ouvir o som do próprio grito. Ouviu um leve eco, que trazia de volta a ela aquele espanto oferecido pelas palavras. Seus dentes agora se batiam. Os lábios, roxos e secos, agora demonstravam a face daquela figura que vira parada à porta. Vira seu vulto. Mas sabia que tinha chegado, enfim. Deu um sorriso com o canto da boca. Virou a palma da mão para cima, cerrou o punho levemente, nem sequer chegou a tocar os dedos uns nos outros. Suas pupilas dilataram-se. Sua boca aberta encontrou-se com o chão, dando o último beijo. Sentiu um leve torpor tomar conta de seu corpo. Levou os olhos de encontro ao vidro atrás de si. Viu a luz da lua pairar sobre aquele sórdido pedaço de vazio que se encontrava. E, abençoada pela luz sombria da lua, partiu.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010